segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Era começo de ano e eu estava em São Paulo, dentro de uma catedral (parecida com a da Sé, mas não era a da Sé), cheia de gente, aguardando o início do espetáculo de volta às aulas.
A torre mais alta possuia janelas de vidro que nos permitia enxergar o céu.
Projetava-se na acústica da igreja, o murmurinho das novidades das férias que eram relatadas com empolgação e já um pouco de saudade. Foi quando a zona foi interrompida com o início do show. Não me lembro muito bem dessa parte, mas eram vários quadros circenses, como malabares, conturcionismo, e palhaçadas. O último deles era uma espécie de ilusão de óptica, onde colocavam fogo nas asas de um mosquito que desesperado voava em torno da igreja projetando uma chama enorme do lado de fora das janelas de vidro, o que visto de dentro da igreja onde eu estava, dava a nítica impressão de que todo o mundo lá fora pegava fogo. Não se sabe qual foi o erro deste número, mas de uma hora para a outra o teto realmente começou a pegar fogo na igreja, que abarrotada, entrou em pânico. Tinha muita gente para pouca porta e em poucos minutos, muito foram pisoteados, eu não sei como consegui sair correndo. Lá fora  o fogo estava se espalhando pela praça, e já haviam alguns carros de resgate que levariam as pessoas para longe dali. A disputa por um lugar nesses carros era mais triste do que a para sair da igreja, na hora do cada um por si, todos tentavam até seus últimos instintos, garantir sua sobrevivência. Enquanto as kombis saíam, os caminhões de bombeiros tentavam cessar o fogo. Para os que ainda não tinham conseuido um lugar na kombi, havia assistência no local, várias enfermeiras jogavam nas pessoas que se contorciam no chão, um liquido branco para queimaduras, que era recebido com gritos de dor quando caía nos corpos dos feridos. Eu estava com as costas queimadas, mas não fui até lá quando vi que os que lá estavam, ao receber o líquido gritavam, e batiam uns nos outros, como se aliviando a raiva, fossem aliviar a dor. Era muito triste, e deveria doer mais levar o medicamento com porrada do que ficar sem medicamento. Sentei num banco e fiquei parada, (morrendo de medo de ser abordada por um dos terroristas queimados que estavam descendo o cacete uns nos outros), esperando que algo acontecesse. O fogo havia se propagado e aquela parte da cidade estava sem luz. Eu vi corpos caídos, pisoteados, e gente pelada queimada, em desespero tentando achar amigos, ou parentes que estavam juntos. Eu graças a deus não tinha essa preocupação porque todos os meus estavam em Santos. Só sentia pelo próximo, mas a dor por quem não se conhece não é tão insuportável, não somos tão humanos assim.
Sentada no banco, vi um menino se aproximar de mim. Ele sentou do meu lado, e logo deitou no meu colo. Ele tinha o rosto queimado. Perguntei qual o seu nome, e ele me disse que não tinha nome. Ficamos em silêncio, assistindo o fim da degradação daquela noite.
De longe avistei um telefone público e fui até lá tentar anunciar a minha sobrevivência para a minha mãe, que se estivesse vendo tv, já me imaginaria um carvão.Quando entrei na cabine tinha um homem usando o telefone. Ele desligou e me deu um beijo. Ele era lindo, mesmo queimado. Não foi falado nada, mas compartilhamos a nossa dor. Tentei ligar para a minha mãe e não consegui. Voltei para o banco, e fiquei por mais não sei quanto tempo, na compania da desesperança.

Minha mãe sempre me ensinou que devemos contar nossos pesadelos para deles sermos livres
Eis aqui o meu desta noite. Devo trabalhar em paz.

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